Vida longa ao capitalismo: um ensaio sobre a desigualdade de renda
- José Maria Dias Pereira

- há 1 dia
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José Maria Dias Pereira (Doutor em Economia UFPE, Professor Aposentado da UFSM)
Marcelo Arend (Doutor em Economia UFRGS, Professor da UFSC)
A economia ocidental passou a tratar o tema da desigualdade de renda como uma questão menor. Esse equívoco ficou claríssimo nos últimos anos da Guerra Fria, quando várias conquistas sociais-democratas foram desmontadas. Se pensarmos no presente, a desigualdade voltou a ser um tema central, especialmente com debates sobre tributação de grandes fortunas, concentração tecnológica e herança.
Em artigo anterior, esta coluna abordou essa questão (aumento da desigualdade de renda) na visão do economista sérvio-americano Branko Milanovic. Ele é a principal autoridade neste campo. Em trabalhos como Global Inequality: A New Approach for the Age of Globalization (2016), ele utiliza dados de pesquisas domiciliares de todo o mundo para calcular o Coeficiente de Gini global. Esse coeficiente indica que, quanto mais próximo de 1, maior é o grau de desigualdade.
Milanovic inclusive participou pela internet, em julho de 2020, do programa Roda Vida, da TV Cultura. Suas conclusões mostram que a desigualdade global começou a cair no final do século XX, impulsionada pela redução da desigualdade entre países (crescimento asiático), mesmo com o aumento da desigualdade dentro de muitos países. O que Milanović sugere é que a desigualdade não é um destino fixo do capitalismo: ela pode aumentar ou diminuir dependendo de políticas públicas, instituições e contextos históricos.
O economista Marcelo Arend, usa Milanovic na sua disciplina de Desenvolvimento Econômico, na UFSC, leu o artigo publicado no “Diário” e mandou um material atualizado sobre a pesquisa de Milanovic a nível mundial, onde se destaca a criativa “Curva do elefante”, construída pelo economista sérvio-americano.
A curva mostra a tendência recente: embora séries antigas indicassem aumento da desigualdade global, no início do século XXI houve convergência, pois, rendas individuais médias na China, Índia e outros grandes Países em Desenvolvimento (PEDs) cresceram mais rápido que nas economias ricas; ao mesmo tempo, a desigualdade doméstica seguiu aumentando em muitos países, inclusive China, Índia e EUA.

Legenda: cauda (0–10%): pobres extremos, pouco crescimento. Corpo (20–60%):
classe média emergente global, grandes ganhos. Vale (70–90%): classe média
de países ricos, estagnação. Tromba (95–100%): topo 1%, enormes Ganhos.
O “elefante” mostra que quem mais ganhou foram: (i) os emergentes asiáticos (classes médias), e (ii) estagnado os pobres globais e a classe média nos países desenvolvidos, fenômeno que explica em parte tensões políticas recentes. Para Milanović, não importa muito, para esse tipo de cidadão, se um sistema é democrático ou autoritário; a preferência será para o sistema que atende melhor as suas necessidades privadas. Uma burocracia bem-formada nas escolas do Partido Comunista Chinês é capaz de prover “administração eficiente. Uma corrupção fora de controle, uma exigência de maior respeito à legalidade e diminuição do arbítrio decisório poderiam, diz ele, descaracterizar o sistema chinês.
Milanović pensa em termos de “modelos” e não de formações históricas. No primeiro modelo, o do “capitalismo meritocrático”, todos os fatores se retroalimentam, todas as suas características se intensificam, e por mais horrível que pareça a crescente concentração de riqueza e de poder, tudo “funciona” para o mesmo fim. As pessoas cada vez mais se isolam do interesse coletivo, cada vez mais pensam no exclusivo sucesso material, e graças a privilégios herdados, os ricos se tornam mais ricos. Não há contradições.
No segundo modelo, o do “capitalismo político”, Milanović identifica algumas “contradições”, mas a rigor poderiam ser chamadas de “riscos”. Mas será que estamos realmente diante de um “modelo” diferente de capitalismo? Ou apenas de um capitalismo em fase de ascensão, com uma ditadura política por cima? O fato é que China, Europa e Estados Unidos estão em fases históricas muito diferentes; não é possível pensar que sejam “modelos” rivais.
Países como Alemanha, Japão e Coreia do Sul entraram no capitalismo graças a uma forte intervenção do Estado; hoje, para o próprio Milanović, pertencem à esfera do “liberalismo meritocrático”. No que a China seria uma alternativa? No final, ficamos com a sensação de que o capitalismo realmente existente terá vida longa porque a sua variante política está preparada para assumir o comando caso a fórmula liberal-meritocrática continue a padecer de problemas até agora insolúveis.




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