A desigualdade na distribuição da renda
- José Maria Dias Pereira

- há 6 horas
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Em "Visões da Desigualdade: da Revolução Francesa ao Fim da Guerra Fria" (Editora Todavia), o economista ioguslavo Branko Milanović aborda o tema da desigualdade de renda, através das obras de autores clássicos, em particular Adam Smith e Karl Marx, ícones da direita e da esquerda respectivamente, chamando a atenção para o fato de o assunto ter sido “esquecido”, tanto por uma corrente teórica quanto pela outra.
Adam Smith nos apresenta o capitalismo já plenamente formado, com suas virtudes e seus problemas. Karl Marx traz para a mesa de discussão a perspectiva das classes subalternas do capitalismo, que até então mal começavam a desfrutar os benefícios do crescimento acelerado.
A leitura de Milanović da obra de Adam Smith busca distanciá-lo da versão simplista em que o autor de "A Riqueza das Nações" seria um defensor acrítico do capitalismo. Smith abraçava a ideia de que o progresso econômico se mede pelo nível de vida dos mais pobres. Embora fosse um defensor da livre concorrência, apontava um canal pelo qual a desigualdade de classe promovida pelo mercado poderia gerar resultados indesejáveis: os ricos sempre terão uma chance razoável de colocar o Estado a serviço de seus interesses.
Isso não quer dizer, é claro, que Adam Smith possa ser aproximado da perspectiva "anticapitalista", seja lá o que isso signifique. Só mostra que, exatamente por ter entendido corretamente os mecanismos que tornavam a economia de mercado mais eficiente do que as outras, Smith também percebeu momentos em que ela podia dar errado.
Milanović conhece bem o pensamento marxista e a realidade dos sistemas socialistas. Isso, por si só, já lhe confere certa singularidade nos dias de hoje. uma das melhores passagens do livro oferece um corretivo à ideia de que o capitalismo sempre geraria desigualdade crescente. Na verdade, utilizando somente os parâmetros da teoria econômica marxista, é possível projetar vários cenários para o futuro da desigualdade de renda no livre mercado: em alguns, ela cresce; em outros ela, cai.
A desigualdade de renda, tal como a entendemos, não era o problema central do pensamento marxista. O filósofo alemão obviamente se preocupava com as condições de vida dos pobres sob o capitalismo, esse foi o problema que inspirou seus estudos, e defendia todas as propostas reformistas que pudessem melhorá-las. Entretanto, não acreditava em uma solução de longo prazo que não passasse pela abolição das classes sociais e pelo advento de um novo sistema econômico.
Aqui o contraste da perspectiva marxista com a perspectiva social-democrata, na qual a desigualdade de renda é absolutamente central, fica claro. A luta concreta dos trabalhadores no século 20 mostrou que, em certas circunstâncias, é possível reduzir muito a desigualdade e elevar muito a qualidade de vida sob o capitalismo. Nada parecido com isso havia acontecido quando Marx era vivo.
Os sistemas socialistas reduziram muito a desigualdade de renda quando extinguiram a propriedade do capital, mas daí em diante seu foco não foi mais na igualdade salarial. O fato de que os trabalhadores podiam lutar por melhorias salariais sem recorrer a uma revolução violenta era parte da propaganda do sistema —e era, naquele período, verdade.
A economia ocidental, inclusive boa parte do keynesianismo, passou a tratar o tema da desigualdade de renda como uma questão menor. Esse equívoco ficou claríssimo nos últimos anos da Guerra Fria, quando várias conquistas sociais-democratas foram desmontadas, seja por governos de orientação neoliberal, seja pela abertura comercial ou pela mudança tecnológica que diminuiu o peso político da classe operária.
O que Milanović sugere é que a desigualdade não é um destino fixo do capitalismo: ela pode aumentar ou diminuir dependendo de políticas públicas, instituições e contextos históricos. Isso contrasta com a visão determinista de Marx e com a relativa negligência de parte da tradição liberal.

Se pensarmos no presente, a desigualdade voltou a ser um tema central, especialmente com debates sobre tributação de grandes fortunas, concentração tecnológica e os impactos da globalização. É curioso notar como o “tema esquecido” retorna com força quando crises sociais e políticas expõem seus efeitos.




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