Brasil lidera expansão de cursos de medicina, mas qualidade do ensino preocupa
- José Maria Dias Pereira

- há 1 dia
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O Brasil atingiu neste ano a marca de 494 cursos de medicina, dos quais 80% pertencem a instituições privadas, somando 50.974 vagas de graduação. Com esse número, o país ocupa a segunda posição mundial em quantidade de escolas médicas, atrás apenas da Índia, que possui cerca de 600 cursos para uma população de mais de 1,4 bilhão de habitantes — contra 213 milhões no Brasil, segundo o IBGE. Além dos cursos já autorizados, há outros 150 pedidos de abertura em análise pelo Ministério da Educação (MEC), enquanto 75 solicitações foram indeferidas.
No último dia 19 de janeiro, a divulgação dos resultados do Enamed (Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica) reacendeu o debate sobre a qualidade da formação no país e seus reflexos diretos no atendimento ao paciente. Apenas 49 faculdades atingiram a nota máxima, enquanto 99 ficaram entre conceitos 1 e 2, evidenciando disparidades significativas. O exame avaliou 89.024 participantes, entre estudantes concluintes (39.256) e médicos já formados (49.768). Segundo levantamento do Inep, apenas 67% dos alunos concluintes alcançaram desempenho considerado proficiente, índice inferior ao dos profissionais já formados, que registraram 75%.
Diante dos resultados, o MEC anunciou que cursos com notas insuficientes passarão por auditorias e poderão sofrer restrições, como a redução de vagas em vestibulares. A expansão acelerada das faculdades, muitas vezes sem estrutura adequada para oferecer prática em hospitais e unidades básicas de saúde, tem sido alvo de críticas. Em menos de dois anos, o MEC aprovou a abertura de 77 novos cursos, que juntos ofertaram 4.412 vagas, além de autorizar a ampliação de outras 1.049 em instituições já existentes, totalizando 5.461 novas vagas entre janeiro de 2024 e setembro de 2025, segundo estudo da Faculdade de Medicina da USP.
O crescimento é resultado, em parte, do programa Mais Médicos, que dobrou o número de vagas de graduação em medicina: de 23 mil em 2014 para mais de 50 mil em 2025. A projeção é que, em 2030, o Brasil tenha 1,2 milhão de médicos — 5,3 por mil habitantes, quase o dobro da taxa atual de 2,98 por mil.
Apesar dos números, especialistas alertam para a ausência de evidências que justifiquem a expansão desenfreada, especialmente no setor privado. Há suspeitas de influência de lobbies políticos e empresariais, envolvendo prefeitos, parlamentares, grupos educacionais e hospitais. Muitos cursos recém-criados são rapidamente incorporados por grandes conglomerados de ensino, transformando-se em negócios altamente lucrativos.
O preço médio das mensalidades em escolas médicas é de R$ 10,2 mil, variando entre R$ 5,1 mil e R$ 15,7 mil. Essa realidade reforça a mercantilização da medicina, que começa antes mesmo do ingresso na universidade. Com 80% dos cursos ofertados por instituições privadas, apenas jovens de famílias de alta renda ou beneficiados por programas de financiamento do governo (FIES) conseguem acessar a formação. O resultado é um ciclo em que a educação médica é tratada como investimento financeiro, e a saúde, como setor de lucro.




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