A Nova Face do Imperialismo na América Latina
- José Maria Dias Pereira

- há 12 minutos
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A recente invasão norte-americana na Venezuela reacende velhos fantasmas na América Latina. O país, detentor das maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo, volta a ser palco de disputas geopolíticas que colocam em xeque a soberania nacional e a estabilidade regional. A intervenção militar, justificada por Washington sob o pretexto de restaurar a democracia, revela-se, na prática, uma operação para assegurar o controle sobre recursos estratégicos venezuelanos.
A economia petroleira venezuelana, após a estatização das petroleiras norte-americanas no governo chavista, produziu uma elite enriquecida ao lado de um quarto da população menor de 15 anos que passa fome. Com o falecimento prematuro de Chaves, que chegou ao poder através de eleições democráticas, após uma fracassada tentativa de golpe, a situação social melhorou através de um convênio com Cuba que resultou em mais de 20 mil mais médicos no sistema de saúde venezuelano (a exemplo do que aconteceu também aqui no Brasil, no governo Dilma Rousseff).
O monopólio pelo Estado da principal fonte de riqueza (petróleo) expulsou os investimentos privados no setor, levou ao enfraquecimento da economia e a um êxodo da população para outros países latino-americanos, inclusive para o Brasil. Paralelamente, a situação política se agravou com o questionamento do resultado das eleições presidenciais e não reconhecimento do vencedor por muitos países. Candidatos, como a ganhadora do Prêmio Nobel da Paz (Maria Corina) foram impedidos de concorrer. Diante da instabilidade da região, os Estados Unidos aproveitaram para deslocar a sua poderosa máquina de guerra para o Caribe e invadiram a Venezuela usando vários pretextos, tais como drogas, terrorismo, etc.
O sequestro de Nicolás Maduro, líder venezuelano, simboliza o colapso do chamado multilateralismo. Em vez de negociações diplomáticas e respeito às instituições internacionais, prevalece o uso da força como instrumento de política externa. Esse episódio expõe a fragilidade das organizações multilaterais, incapazes de conter a imposição unilateral de interesses por parte das grandes potências.
A Venezuela, já marcada por crises econômicas e sociais profundas, enfrenta agora um futuro incerto. A ocupação militar tende a agravar a instabilidade interna, ao mesmo tempo em que abre espaço para a exploração intensiva de suas reservas de petróleo por empresas estrangeiras. O povo venezuelano, que deveria ser o protagonista de sua própria história, corre o risco de se tornar mero espectador de decisões tomadas além de suas fronteiras.
O retorno do imperialismo na América Latina não é apenas uma questão venezuelana. Durante décadas, os Estados Unidos voltaram seus olhos para o Oriente Médio, em busca de petróleo e influência estratégica. Agora, com a região latino-americana novamente no radar, revive-se a lógica da Doutrina Monroe, proclamada no século XIX: “A América para os americanos”. Na prática, essa máxima sempre significou “A América para os interesses norte-americanos”.
Esse reposicionamento geopolítico traz implicações diretas para os países vizinhos. O Brasil, maior economia da região, encontra-se diante de um dilema: alinhar-se aos interesses de Washington ou reafirmar sua autonomia diplomática. A postura brasileira será decisiva para definir se a América Latina seguirá fragmentada e vulnerável ou se buscará uma resposta coletiva diante da nova ofensiva imperial.
A invasão da Venezuela também lança luz sobre a fragilidade das democracias latino-americanas. A incapacidade de construir mecanismos regionais eficazes de defesa e cooperação deixa cada país isolado diante das pressões externas. Sem uma integração sólida, o continente permanece sujeito às oscilações da política internacional e às ambições das grandes potências.
O futuro da Venezuela e da América Latina dependerá da capacidade de resistir a esse novo ciclo de intervenção. Se prevalecer a lógica da força, o continente poderá reviver os tempos em que golpes e invasões eram rotina. Mas se houver articulação regional e defesa da soberania, a crise venezuelana poderá servir como ponto de inflexão para repensar o papel da América Latina no mundo. O Brasil, nesse tabuleiro, tem a chance de assumir protagonismo — ou de se tornar mais uma peça subordinada no xadrez imperial.
Texto escrito especialmente para a coluna “Opinião”, do Diário de SM (impresso), de quarta-feira 7/01/2026, pelo Professor Doutor aposentado do Curso de Economia e Relações internacionais da UFSM




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