Aniversário de 66 anos de Brasília
- José Maria Dias Pereira

- há 2 dias
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Inaugurada em 21 de abril de 1960, Brasília representa um marco na história do Brasil. Idealizada pelo presidente Juscelino Kubitschek, a nova capital nasceu com o objetivo de integrar o território nacional, promover o desenvolvimento do interior e simbolizar a modernidade que o país buscava na segunda metade do século XX. Mais do que uma cidade, Brasília é um projeto político, arquitetônico e cultural que traduz a ambição de construir um futuro inovador.
A concepção da capital
O plano urbanístico de Brasília foi elaborado por Lúcio Costa, enquanto Oscar Niemeyer ficou responsável pelos principais edifícios públicos. O traçado em forma de avião ou cruz, conhecido como “Plano Piloto”, reflete uma visão racional e funcional, com setores bem definidos para habitação, comércio e serviços. Essa organização urbana diferenciada tornou Brasília um exemplo mundial de planejamento e lhe rendeu o título de Patrimônio Cultural da Humanidade pela UNESCO em 1987.
Símbolos arquitetônicos
Entre os ícones da cidade estão o Congresso Nacional, o Palácio da Alvorada e a Catedral Metropolitana. Essas construções não apenas cumprem funções administrativas e religiosas, mas também expressam a estética ousada de Niemeyer, marcada por curvas, leveza e monumentalidade. A arquitetura de Brasília é, portanto, um testemunho da criatividade brasileira e da busca por identidade própria no cenário internacional.
Brasília e a integração nacional
A transferência da capital para o Planalto Central teve forte impacto na ocupação do território. A cidade tornou-se polo de atração populacional e econômica, estimulando o crescimento de regiões antes pouco exploradas. Ao mesmo tempo, Brasília consolidou-se como centro político, abrigando os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, e desempenhando papel estratégico na tomada de decisões nacionais.
Brasília foi erguida em apenas 41 meses, entre 1956 e 1960, um feito impressionante para uma cidade inteira planejada do zero. O desenho urbano de Lúcio Costa, em formato de avião ou cruz, é único no mundo. Ele separa áreas residenciais, comerciais e administrativas em setores bem definidos, o que tornou Brasília referência internacional em urbanismo. Oscar Niemeyer projetou os principais edifícios públicos, como o Congresso Nacional e a Catedral Metropolitana, que se tornaram ícones da cidade e símbolos da criatividade brasileira.
Aspectos políticos e econômicos da transferência da capital
A mudança da capital do Rio de Janeiro não foi uma questão pacífica. Na verdade, nunca é, dentro do sistema democrático. Após o suicídio de Getúlio Vargas, em agosto de 1954, o político mineiro Juscelino Kubitschek se elegeu Presidente da República com um discurso desenvolvimentista que prometia recuperar o terreno perdido, sobretudo levando-se em conta o atraso econômico do país na época, em pouco tempo. Seu slogan de campanha era “50 anos em 5”.
Na cabeça do novo presidente, a construção da nova capital era uma espécie de “joia da Coroa” e, apesar das opiniões divergentes, Juscelino fechou questão e a obra saiu em tempo recorde de 41 meses – um desafio e tanto para arquitetos e engenheiros brasileiros, muitos recém-formados. Havia que considerar a localização longe dos grandes centros do Rio e São Paulo, no Planalto Central do Brasil, naquele momento carente de tudo, inclusive de mão de obra local qualificada para trabalhar na construção. Para resolver esse problema, foi preciso recorrer aos trabalhadores da região Nordeste, que eram chamados de candangos. Até hoje, quem for a Brasília irá perceber, sobretudo nos ministérios, o elevado contingente de pessoas com laços de parentesco com esses desbravadores.
Uma vez concluída a obra, logo ficou claro que faltavam também políticos para exercer as funções legislativas. Como, na época havia até dificuldade de acomodação e os políticos também não estavam acostumados a ficar longe da família, resultou que a semana legislativa passou a ser de terça-feira a quinta-feira. O resto dos dias era reservado para viagem dos políticos e convivência familiar nas suas regiões de origem. Ocorre que, apesar de Brasília ter uma estrutura completa, essa tradição ainda vigora, resultando em perda para o erário público. O mesmo acontece com os apartamentos funcionais cedidos para deputados federais e senadores para mantê-los em Brasília, que hoje não fazem nenhum sentido. Mas continuam cedidos para os políticos, inclusive alguns não reeleitos.
Com o golpe militar de 1964, o Congresso Nacional se transformou em um castelo abandonado, alguns afirmando até que viram fantasmas por lá. Todas as decisões passaram para as mãos dos militares, cujo partido (ARENA) sempre votava a favor do governo, O outro partido MDB, muito pequeno, tampouco podia fazer alguma coisa. Esse cenário ficou pior com o advento do AI5 que aumentou a repressão e cassou alguns deputados, como foi o caso do deputado Rubem Paiva, cujo livro escrito por seu filho, “Ainda estamos aqui” deu o primeiro prêmio Oscar ao Brasil (melhor filme internacional).
A partir desse momento, com o aumento do volume das denúncias de torturas e mortes, o jogo mudou. Praticamente não houve mais oposição ao regime. A esquerda avaliou mal sua capacidade de reação e partiu para o “tudo ou nada”, ou seja, a luta armada (assalto de bancos, sequestros de embaixadores, guerrilha do Araguaia). O resultado foi a catástrofe que todos nós conhecemos. Só a partir de 1979, com a anistia “lenta, gradual e segura”, de Geisel, a política voltou a ser assunto nas rodas de conversas. Sob a liderança de Ulisses Guimarães (Presidente do MDB) na defesa das “Diretas Já”, a democracia, aos poucos, começou a ficar de pé. A campanha das Diretas fracassou e o Congresso, numa eleição indireta, escolheu Tancredo Neves, que faleceu antes de tomar posse, e assumiu o vice (José Sarney).
No mais longo período de permanência (desde 1985) a democracia voltaria à Pátria brasileira. Um político alagoano pouco conhecido, foi eleito com um discurso populista (Fernando Collor) e, posteriormente, foi cassado. Desde lá, “aos trancos e barrancos”, a democracia brasileira permanece de pé e Lula – líder do Partido dos Trabalhadores (PT), fundado em 1980, já está em seu terceiro mandato. Sobre Brasília, não passa um dia sequer que não haja denúncias de envolvimento de parlamentares em “tenebrosas transações”. Símbolo do poder do Legislativo são as “emendas parlamentares”, instrumento de chantagem ao Executivo e fonte de corrupção.
Não era bem isso que o idealizador de Brasília, Juscelino Kubitschek, que pretendia disputar novamente as eleições para a presidência, falecido num acidente de carro em 1976, até hoje não muito bem esclarecido, imaginava que fosse acontecer. Aliás, nenhum democrata espera que isso vá acontecer. Nesse caso, vale a máxima, de que “cada povo tem os políticos que merece”.




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