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A Copa do Mundo da controvérsia

  • Foto do escritor: José Maria Dias Pereira
    José Maria Dias Pereira
  • 12 de jul.
  • 3 min de leitura

A Copa do Mundo de 2026, realizada em três países - México, Canadá e Estados Unidos - ficará marcada não apenas pelo número recorde de países participantes, mas sobretudo pelos conflitos de interesse que se tornaram visíveis em cada etapa da competição.  


A Copa do Mundo de 2026 foi também um marco econômico e cultural recorde de receitas para a FIFA, com impacto estimado de US$ 41 bilhões no PIB global, e ao mesmo tempo uma vitrine de tensões culturais e políticas entre países-sedes participantes.  O futebol, que deveria ser celebração universal, foi atravessado por disputas políticas, tecnológicas e comerciais que expuseram fragilidades do esporte moderno. 


O primeiro choque veio da transmissão televisiva. Uma emissora pequena (Casé TV) conseguiu superar a poderosa Globo e adquiriu os direitos de todos os jogos. A surpresa não foi apenas pelo porte da empresa, mas pela forma como ela se beneficiou de acordos com patrocinadores ligados a sites de apostas. A explosão das propagandas das BETs na internet criou um ambiente em que o poder econômico desses grupos se sobrepôs ao histórico domínio das grandes redes de televisão. 


Essa relação entre mídia e apostas revela conflito de interesses. A presença ostensiva das casas de apostas não apenas financiou a transmissão, mas também influenciou a narrativa esportiva. O torcedor foi bombardeado por slogans e bônus, enquanto a credibilidade do futebol parecia se diluir em meio a interesses comerciais. O esporte, nesse cenário, tornou-se vitrine para um mercado que lucra com a incerteza e a emoção.

 

No campo de jogo, a tecnologia também foi protagonista. O chip inserido na bola de futebol, capaz de detectar movimentos milimétricos, foi elogiado por garantir precisão, mas criticado por provocar anulações excessivas de gols. Seleções se sentiram prejudicadas, enquanto outras foram visivelmente favorecidas. A pergunta que ecoou na "zona mista" , numa partida cujo gol foi anulado porque o VAR detectou milimetricamente a posição de impedimento de um jogador, foi: é mesmo necessário que a bola detecte até um fio de cabelo, como aconteceu nessa partida? A obsessão pela exatidão transformou a arbitragem em um processo quase robotizado, afastando o elemento humano que sempre fez parte do jogo. Afinal, em última análise, quem faz a interpretação do lance é quem observa dentro do campo (o juiz) e ele é um ser humano!

 

Por outro lado, houve avanços inegáveis. O chamado “impedimento automático” reduziu a demora das revisões, mesmo em estádios já equipados com o VAR. A autoridade do árbitro fora de campo ganhou força, mas isso também gerou desconforto: quem realmente decide o destino de uma partida, o juiz em campo ou a máquina que interpreta os dados? A hierarquia da arbitragem foi redesenhada pela tecnologia. 


A política, inevitavelmente, invadiu o gramado. A Federação dos EUA, atendendo ao pedido do presidente dos Estados Unidos, cancelou um cartão vermelho aplicado a um jogador norte-americano. A decisão, inédita e polêmica, mostrou como o poder político pode intervir diretamente no esporte. O pior é que isso não serviu para nada: a seleção norte-americana acabou sendo desclassificada. Ao mesmo tempo, a delegação do Irã, país em conflito com os Estados Unidos, denunciou tratamento hostil e foi obrigada a se hospedar no México, evidenciando como a geopolítica contaminou a competição. 

 

Em resumo, a Copa de 2026 foi a maior de todas não só em número de países (48 delegações), mas também foi a mais controversa. O futebol se viu mergulhado em uma trama marcada por disputas de mídia, tecnologia e política, revelando que o espetáculo global não é apenas sobre gols e vitórias, mas sobre interesses que se chocam em escala planetária. O torneio escancarou que, no século XXI, o futebol é palco de disputas muito além das "quatro linhas" - para usar a expressão favorita do líder da recente tentativa de golpe de Estado no Brasil.

 
 
 

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